imagem de topo Missão Rússia 2007

Sócrates na Rússia num momento delicado

O primeiro-ministro encontra Putin numa visita de âmbito bilateral quando as relações entre a União Europeia e a Rússia atravessam o seu pior momento de sempre

Cinco ministros, três secretários de Estado e 40 empresários integram a extensa comitiva que acompanha o primeiro-ministro português numa vista quase relâmpago a Moscovo, numa altura em que as relações entre a União Europeia (UE) e a Rússia atravessam o seu ponto mais baixo praticamente desde o fim da Guerra Fria.

Embora tenha uma natureza essencialmente bilateral e sejam boas as relações entre Lisboa e Moscovo, a visita de dois dias não pode escapar nem à sombra do fracasso da cimeira entre a União e a Rússia em Samara, no passado dia 18, nem muito menos ao facto de Portugal assumir a presidência da UE dentro de pouco mais de um mês, herdando este pesado dossier. José Sócrates reconhece isso mesmo nas linhas e nas entrelinhas da mensagem sobre a visita que, como é já habitual, gravou para o site do Governo (www.missaorussia.gov.pt).

Do ponto de vista bilateral, a visita foi programada muito antes de as relações entre Moscovo e Bruxelas terem atingido o grau zero. Enquadra-se numa estratégia de desenvolvimento das relações políticas e económicas com as grandes economias emergentes, como a China ou a Índia, mas também a Rússia ou o Brasil. A comitiva empresarial e o peso ministerial sublinham bem este lado da visita de dois dias a Moscovo (ver texto na página ao lado) que terá uma forte componente económica.

Mas, a um mês da presidência portuguesa da União e quando ainda não assentou o pó do fracasso da cimeira de Samara (ver texto em baixo), as palavras e os actos de Sócrates em Moscovo terão de seguir também um guião europeu pleno de armadilhas.

Na mesma mensagem, Sócrates considera "absolutamente essencial" para a Europa e para o mundo "a construção de um clima de bom e franco relacionamento" entre a União Europeia e a Rússia. Não apenas do ponto de vista das questões energéticas (a Rússia é o principal fornecedor de gás e petróleo da Europa), mas também para aquilo que define como "a promoção de uma nova ordem internacional baseada na paz, na democracia e nos direitos humanos". Uma forma indirecta de lembrar que a Europa precisa de uma Rússia cooperante para poder lidar com a maioria dos problemas que enfrenta à escala regional e mundial - do Irão ao Kosovo, passando pelo Médio Oriente. Mas também para sublinhar que a questão dos valores - a democracia e os direitos humanos são as palavras-chave - ocupa um lugar incontornável no relacionamento com o seu grande vizinho do Leste.

Autoritarismo de Putin

A deriva autoritária da Rússia é hoje um dos principais obstáculos nas relações entre os dois blocos. A dureza com que Vladimir Putin reprime a oposição ou os media é um facto que os europeus já não podem simplesmente ignorar. Este foi um dos principais pontos de atrito em Samara. O outro diz respeito à guerra declarada por Moscovo contra alguns dos novos Estados-membros da UE que já estiveram sob domínio soviético (a Polónia e os Bálticos em primeiro lugar), numa estratégia que visa dividir para reinar e que põe à prova a solidariedade europeia. A cimeira de Samara fracassou precisamente porque a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da Comissão, Durão Barroso, quiseram deixar claro a Vladimir Putin que não pode ir por aí.

A chanceler da Alemanha, que preside actualmente ao Conselho Europeu, já comunicou a Sócrates as suas próprias conclusões sobre a cimeira e o gabinete do primeiro-ministro sublinha que a visita foi preparada "em perfeita sintonia com a presidência alemã". Mas também insiste que a palavra de ordem, na Europa, não é de "fechar as portas à Rússia", antes pelo contrário, "toda a gente tem perfeita consciência de que é necessário prosseguir o diálogo". A diplomacia portuguesa destaca o facto de não haver qualquer contencioso na relação entre os dois países e de Portugal nem sequer depender da energia russa para valorizar a sua capacidade para ajudar a reconstruir uma relação que a Europa considera vital para os seus interesses estratégicos. Na sua mensagem, Sócrates afirma que a visita decorre "num momento importante" para a construção de uma nova parceria estratégica entre a UE e a Rússia cujas negociações continuam bloqueadas. Sabe que esse será um dos temas da cimeira que terá lugar em Mafra, em Outubro, durante a presidência portuguesa e que, até lá, há um longo caminho de obstáculos a vencer. O seu encontro com Putin, amanhã, também é visto em Lisboa como uma forma de desenvolver as relações pessoais e políticas entre os dois homens. O primeiro-ministro será, aliás, recebido em Moscovo já com honras de presidente do Conselho Europeu. Foi convidado a pernoitar no Kremlin, distinção que Putin apenas concede aos seus homólogos.

Seja como for, a visita será um teste para José Sócrates e para a diplomacia portuguesa. Não faltarão as perguntas incómodas sobre o respeito pelas liberdades na Rússia, por mais atractivos que sejam os negócios que as empresas portuguesas possam fazer no gigantesco mercado russo ou interessantes as relações históricas e culturais entre os dois países.

Hoje

- Cerimónia no Túmulo do Soldado Desconhecido
- Encontro com o presidente da Duma, o Parlamento russo
- Almoço com decisores económicos russos
- Encontro com o primeiro-ministro da Federação Russa
- Inauguração da Mostra Tecnológica
- Concerto de Mariza

Amanhã

- Discurso na sessão de abertura do Conselho Empresarial
- Encontro com o Presidente Putin, seguido de almoço e conferência de imprensa conjunta

28/05/2007 | Teresa de Sousa, Público

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Sabia que...

Sabia que quase cinco mil cidadãos russos vivem em Portugal?

De acordo com dados estatísticos do SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, entre os 275.906 estrangeiros que escolheram Portugal para viver, há 4.939 cidadãos originários da Rússia.

Por sexos, 2468 são Homens e 2471 são Mulheres. Quase uma igualdade.

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