
TROCAS COMERCIAIS, INVESTIMENTO E TURISMO estão aquém das potencialidades. Empresários e Governo portugueses lutam por inverter a situação
Incipiente é o melhor adjectivo para qualificar as relações entre Portugal e a Rússia a todos os níveis. Apesar de os empresários nacionais reconhecerem o enorme potencial que este país pode ter - ou Moscovo por si só não tivesse mais população do que Portugal inteiro - a verdade é que os investimentos e as trocas comerciais tardam em acompanhar esse reconhecimento.
A Rússia já foi classificada como um dos mercados prioritários pelo Governo português e nos últimos tempos as visitas de responsáveis de ambos os países têm-se sucedido numa tentativa de fortalecer os laços bilaterais. Portugal apenas exportou 1,21% do total das suas vendas ao estrangeiro para a Rússia, ou seja, o correspondente a 641,3 milhões de euros e a balança comercial entre os dois países é altamente deficitária para Portugal.
Uma característica que se pode justificar pelo facto de os combustíveis minerais serem o principal produto que Portugal compra à Rússia (seguido dos metais comuns e os produtos agrícolas), enquanto Portugal apenas vende veículos e outros materiais de transporte, seguidos do calçado, madeira e cortiça
As inúmeras empresas portuguesas de calçado que já estão presentes no mercado russo são um bom paradigma para as relações económicas entre os dois países. A maioria prefere encontrar um representante local e exportar, sem necessitar de fazer qualquer investimento. A Aerosoles é um exemplo de uma empresa que encontrou um representante comercial, há dois anos, e agora está a pensar em abrir a primeira loja de marca, mais exactamente no segundo semestre deste ano. Esta abordagem é explicada pelas dificuldades que o mercado apresenta, não só do ponto de vista legislativo, mas também logístico, alfandegário e até mesmo cultural.
Mais resistentes a estas dificuldades estão empresas como a Amorim, a Tecmolde (presente há 30 anos no mercado russo), ou a cerâmica Pavigrés (na Rússia há dez anos), que continuam a investir fortemente neste mercado, a precisar de grandes investimentos ao nível das infra-estruturas. Estes parcos exemplos não chegam para potenciar o investimento português na Rússia, que se ficou pelos 1,07 milhões de euros em 2005 - Portugal foi o 51º investidor estrangeiro na Rússia
A pouca importância dos investimentos é recíproca, ou seja, a Rússia, no mesmo ano, apenas investiu 215 mil euros em Portugal (58º investidor).
Mas a situação poderá vir a mudar já que a Companhia Nacional de Gás russa vai construir uma fábrica de etileno em Sines (65 milhões de euros de investimento) e a Sallut, em parceria com a portuguesa New Master, vai avançar com um projecto de dessalinização no Algarve (7 milhões de euros).
O desconhecimento dos dois países estende-se ainda ao sector do turismo. O número de dormidas de turistas russos foi de apenas de 112 mil, gerando uma receita de 12,64 milhões de euros, concentrando-se essencialmente em Lisboa, Algarve e Madeira O problema, segundo a análise do Icep, reside no facto de o destino Portugal ser vendido sobretudo por muitos operadores com pequena capacidade financeira, sendo-lhes impossível desenvolver acções promocionais de envergadura ou de organizarem operações 'charter'. Além de apenas haver 40 operadores a apresentar programas para Portugal - sendo que os três principais são responsáveis por mais de metade do fluxo -, o deficiente sistema de transportes aéreos representa um grande obstáculo ao empenho dos agentes turísticos e encarece substancialmente as viagens. Não é pois inocente o facto de Sergei Narichkin, o número dois do Governo de Putin quando veio a Portugal, no final Fevereiro, ter tentado um entendimento com a companhia aérea Krasair para realizar dois voos directos semanais entre Lisboa e Moscovo a partir de Julho. Presentemente, existe apenas um voo directo entre as duas capitais e, no período estival, existe um voo 'charter' entre Moscovo e Faro.
A Rússia e Portugal estão a preparar um vasto conjunto de documentos comuns que serão assinados na Cimeira UE/Rússia que terá lugar em Outubro, em Mafra, durante a presidência portuguesa da UE.
A confirmação foi dada ontem pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Fradkov, que garantiu ainda a presença do presidente russo, Vladimir Putin, no encontro. Portugal tem a dura tarefa de conseguir amenizar as divergências entre a Rússia e os restantes parceiros europeus. Visto pelo Presidente Putin como um parceiro imparcial e desinteressado, merece o estatuto de país amigo - até porque inventou o sistema que antecipou a livre circulação de pessoas para o Leste europeu. Não se espera que o Governo Sócrates consiga resultados palpáveis, mas os analistas avançam que o não piorar da situação de desconfiança que se vive em relação a Moscovo já será uma grande ajuda. Sócrates terá de usar a sua relação pessoal com Putin para descongelar as relações UE/Rússia.
Governo pode não conseguir sustentar os actuais níveis de despesa.
Ter petróleo e gás natural não é a solução para todos os problemas. E a Rússia é um exemplo. É i verdade que, para muitos economistas, a Rússia , poderá estar a atravessar um dos períodos mais prósperos da sua economia, com um crescimento de 6,5% ao ano, a inflação em rota descendente e as dívidas ao Clube de Paris saldadas. No entanto, apesar dos 13,5 mil milhões de euros de excedente orçamental no primeiro trimestre os analistas alertam para alguns riscos de médio prazo que as presentes políticas seguidas pelo Executivo podem causar, nomeadamente pelo recente aumento da despesa pública e a lentidão na implementação de reformas estruturais, em especial fora do sector bancário.
O crescimento económico russo não está ameaçado, a garantia é do próprio fundo Monetário Internacional (FMI), mas está muito dependente da evolução do preço do petróleo. O grande motor de progressão da economia é o consumo interno - o que justifica a presença no país de quase todas as marcas de luxo -, mas a contribuição do investimento para o crescimento vai aumentar, de acordo com a análise da semana da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A inflação na casa dos 15% é um fantasma do passado e as organizações internacionais tranquilizam os investidores, prevendo a continuação da rota descendente deste indicador - a previsão do FMI aponta para 8,5% este ano -, sobretudo devido à redução do excedente externo, uma cada vez maior desdolarização da economia, mas também devido a um abrandamento das tarifas das 'utilities' e de outros preços regulados, defende a OCDE.
As autoridades russas, com a subida dos preços do petróleo, foram sistematicamente pressionadas a aplicar mais as receitas petrolíferas. Assim, o Governo adoptou uma política de menor restrição orçamental que vai prosseguir ao longo deste ano, apesar de a economia estar próxima da capacidade total As principais fontes de receita da economia russa são as taxas alfandegárias, o IVA e impostos sobre a extracção mineira, fundos que o Governo pretende utilizar para vários esquemas como um banco do desenvolvimento, um fundo de altas tecnologias e um fundo para o sector imobiliário e para as 'utilities' (23,6 biliões de euros). As receitas provenientes das taxas de exportação do petróleo e dos impostos da extracção mineira são canalizados para um fundo de estabilização estatal, à semelhança do que é feito na Noruega, quando o preço do barril de petróleo ultrapassa os 27 dólares por barril.
Os analistas alertam, porém, que se os preços do petróleo caírem em flecha o Governo russo poderá não ter condições para sustentar o actual nível de despesa pública - ainda que o nível da dívida externa seja muito reduzido e o país tenha já saldado todas as suas dívidas junto de credores internacionais como o Clube de Paris ou o FMI - o que "alimenta o espectro da restrição orçamental prócíclica e da taxa de câmbio efectiva ultrapassar o seu equilíbrio de longo prazo", alerta o FMI.
O Governo está consciente da necessidade de reduzir a dependência da economia das matérias -primas, expandir as áreas ligadas às novas tecnologias e às infra-estruturas do país, mas também desenvolver uma classe média, sendo para isso fundamental reduzir a corrupção, a burocracia e outras leis onerosas.