imagem de topo Missão Rússia 2007

Sócrates trilha os caminhos do IDE russo

O primeiro -ministro foi ontem recebido pelo seu homologo russo, Mikhail Fradkov. e almoçou com decisores económicos. Mas a grande corrida para ver dois helicópteros foi mesmo o ponto alto do dia

Cerca de 80 kms de corrida pela cintura rodoviária de Moscovo, centenas de estradas cortadas, quilómetros de filas paradas em todos os sentidos, incluindo a do sentido inverso, com seis faixas, gente de fora dos carros ao calor já abrasador às dez horas da manhã, milhões de horas de produtividade desperdiçada no asfalto e uma sempre enorme via aberta à frente dos pirilampos dos batedores da comitiva. Uma hora depois de um cenário assim, os carros da comitiva oficial portuguesa, com o primeiro-ministro, ministro da economia, ministro da Administração Interna, secretário de Estado para a Defesa do Consumidor, assessores, jornalistas e muitos seguranças entraram em Ramenskoe, uma cidade proibida no tempo da União Soviética, onde grande parte da aviação do império vermelho era produzida. Minutos depois, a base aérea de testes e logo a seguir, a razão de tanto investimento: os Kamov, dois, e por detrás, bem maior, o Beriev, o maior avião de combate a incêndios do mundo, que os russos andam há anos a querer vender a Itália, e agora a Portugal, tão grande que não cabe nas pequenas barragens portugueses nem serve ao alteroso mar português.

Um pequeno grupo de pessoas perfilou-se ao lado de um pequeno palanque para receber Portugal, que se aproximou a passos rápidos, três ecrãs plasma derretiam à sombra de um pequeno barracão ansiosos por provar que não serviriam para nada. José Sócrates estendeu a mão ao primeiro elemento para parar no último alguns minutos depois e toda a gente estava finalmente preparada para a apresentação de um helicóptero de combate a fogos florestais que António Costa comprou há largos meses. O mesmo que o seu sucessor na Administração Interna, Rui Pereira, soube há dias que não chegaria dentro do prazo estabelecido, pelo que teve que fechar um contrato de aluguer de seis helicópteros sem concurso, mesmo a tempo de embarcar no avião que o traria a Rússia.

O primeiro evento simbólico de uma aproximação entre a Rússia umBric em ascensão - e Portugal, um país cuja economia quer deixar de estar refém de sectores como o da construção, foi, tudo leva a crer, uma imposição do lado russo. O país de Vladimir Putin facturou oito mil milhões de euros em venda de armamento em 2006, incluindo aviação militar de aplicação civil, como os Kamov que estiveram hoje na pista do aeroporto de Ramenskoe. Portugal contribui com 87 milhões de euros para aquele recorde absoluto. Mas os seis helicópteros russos que começarão a chegar a Portugal este Verão representam para a Rússia mais do que eles próprios, Moscovo sabe isso. E José Sócrates fez o que podia para aproveitar alguma coisa de tanta ambição.

Ouvido o discurso de Igor Pshenichny, o director geral da Kamov, o primeiro-ministro português reteve a indicação de que os dois helicópteros em presença eram de modelos diferentes e que um deles, o mais novo, estava em fase de lançamento. "Podíamos analisar a hipótese de montar este novo modelo em Portugal para o vender em todo o mundo. E até podíamos desenvolver lá algumas peças". "Da, da", respondeu o russo. Ao evidente "sim, sim" de circunstância Sócrates ainda acrescentou um entusiasmado "bom, então têm que falar com as nossas empresas. Estamos muito abertos a isso!"

O Jornal de Negócios aproveitou a oportunidade para deixar a pergunta: "Senhor Pshenichny, a mensagem do primeiro-ministro português parece clara, Portugal quer ser um centro de manutenção e de produção dos Kamov na Europa. O que é que tem que fazer para isso? Quantos helicópteros tem que comprar mais, para considerarem um contrato desta natureza?" "Não podemos saltar barreiras. Temos que desenvolver as coisas passo a passo", ouviu de volta.

O Jornal de Negócios ficou esclarecido. De resto já tinha suspeitado quando a uma tentativa de aprofundamento do desafio por parte de José Sócrates, o empresário russo pareceu lembrar-se de uma ideia que tinha tido há algum tempo quando visitou o Pólo Tecnológico da Universidade da Covilhã: levar para aí professores russos e alunos em final de curso, estabelecer parcerias com as universidades russas, com a intermediação da Kamov, enfim, "apenas uma ideia". "Sabe que eu sou da Covilhã?",devolveu Sócrates. E aquele senhor também!", apontou para Luís Patrão."Seria óptimo!", disse ainda. "Teria o seu nome numa rua!", acrescentou o conterrâneo do primeiro-ministro.

Igor Pshenichny pode vir a ser um símbolo gravado na pedra do IDE russo em Portugal. A segunda vantagem poderá ter a ver com a necessidade de a Covilhã ter de começar a alargar uma via rodoviária, pelo menos e só para começar. É um investimento em construção e a Rússia sempre é um "bric".

NEGÓCIOS COM VISTA SOBRE O KREMLIN

Gazprom transmite a José Sócrates vontade de entrar no mercado ibérico

Alexei Kruglov, vice-presidente da Gazprom, manifestou ontem a José Sócrates a intenção da gasífera em entrar, a prazo, no mercado ibérico, de acordo com fonte do Governo à Lusa. Sobre o tema Gazprom, o ministro da Economia disse ao Jornal de Negócios que "não há nada, apenas declarações políticas''. Manuel Pinho escusou-se a acrescentar outros detalhes, apenas confirmando que as duas personalidades ligadas à empresa, o seu presidente executivo, Ferreira de Oliveira, e Américo Amorim, presidente da Amorim Energia não se deslocaram a Moscovo, como esteve sempre previsto no programa oficial de três dias à Rússia Sócrates terá ainda sublinhado a utilidade do porto de Sines para os interesses estratégicos russos enquanto plataforma de ligação a África e Améríca. E um representante da Companhia Nacional de Gás da Rússia (subsidiária da Gazprom para o sector petroquímico) disse que o porto estava dentro dos planos da sua empresa.

Catorze tecnológicas mostram-se em Moscovo

O ICEP fez coincidir a visita oficial de José Sócrates à Rússia com uma mostra tecnológica em que envolveu 14 empresas que vieram encetar contactos em Moscovo, apresentando um "Portugal, mais do que [se] imagina". A mostra, aberta aos especialistas russos entre 28 e 30 de Maio, e inaugurada ontem pelo primeiro -ministro, pode será rampa destas empresas para a participação no Programa Federal Especial "A Rússia Electrónica'', uma das grandes apostas do Kremlin na modernização da economia e da sociedade russa. Esta iniciativa visa mostrar "um Portugal novo, que aposta na inovação, na criatividade e nas soluções à medida dos clientes" - lê-se numa nota distribuída à imprensa pelo gabinete do primeiro-ministro (Lusa).

Rússia paga dívida da ex-URSS

A Rússia vai pagar, de uma só vez, em Agosto a dívida da ex-União Soviética a Portugal, indicou ao Jornal de Negócios o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos. Lisboa e Moscovo chegaram a ponderar a hipótese dos 83,6 milhões de dólares (62,1 milhões de euros) devidos a Portugal - incluindo 18 milhões de euros devidos ao sector empresarial - poderem pagar parte da compra de seis aviões de combate a fogos florestais Beriev BE 200, mas essa ideia foi afastada, pelo que esta decisão para constitui um final no negócio, apesar das palavras "simpáticas" de José sócrates e do ministro da Administração Interna sobre o aparelho. A garantia do pagamento da dívida da ex-URSS em Agosto, disse Teixeira dos Santos à Lusa, terá sido dada pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Fradkov, no encontro que manteve com Sócrates na Casa Branca, sede do Governo russo.

Linha de crédito de apoio às exportações

O ministro de Estado e das Finanças, Teixeira dos Santos, reiterou ontem a informação de que Portugal e Rússia vão fechar até Julho uma linha de crédito recíproca para o apoio às exportações dos dois países e que o Estado Português "está disposto a chegar a um valor máximo de 200 milhões de euros".

O acordo para a definição de um calendário para a concretização da linha de crédito - que apoiará simultaneamente exportações nacionais para a Rússia e exportações russas para Portugal - será assinado hoje, ao fim da manhã, no Kremlin, na presença do chefe de Estado russo, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro, José Sócrates. A Rússia deverá comunicar hoje o montante que pretende destinar à iniciativa.

29/05/2007 | Agostinho Leite, Jornal de Negócios

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Sabia que...

Sabia que quase cinco mil cidadãos russos vivem em Portugal?

De acordo com dados estatísticos do SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, entre os 275.906 estrangeiros que escolheram Portugal para viver, há 4.939 cidadãos originários da Rússia.

Por sexos, 2468 são Homens e 2471 são Mulheres. Quase uma igualdade.

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