imagem de topo Missão Rússia 2007

Putin duro, Sócrates conciliador sobre crise

Foi um encontro mais longo do que o previsto. As frias relações entre a União Europeia e a Rússia estiveram em cima da mesa

Não foram apenas cordialidades ou formalidades, porque o encontro a sós entre o Presidente russo e o primeiro-ministro português prolongou-se muito para além do tempo inicialmente previsto - durou duas horas e meia. José Sócrates deu o mote, logo que chegou ao Kremlin, dizendo que tencionava passar em revista "todas" as questões da agenda das relações entre a UE e a Rússia. Vladimir Putin também não escondeu o seu interesse especial num interlocutor que irá presidir em breve ao Conselho Europeu.

Na conferência de imprensa final foi o Presidente russo que falou de modo mais duro e o primeiro-ministro português quem procurou ser mais contemporizador quando se tratou das questões mais delicadas que hoje afectam as relações entre UE e Rússia.

Putin não saiu, praticamente, do seu guião habitual. Falou da importância que o seu país dá às relações com a Europa, mas foi directo ao assunto, hoje mais sensível, na sua relação com o Ocidente: o escudo antimísseis americano. Para dizer que é "inútil e muito perigoso", que leva a nova corrida ao armamento na Europa. "Cria novos riscos absolutamente desnecessários."

"Chamei a atenção do primeiro-ministro português para certos problemas de alguns dos nossos amigos ocidentais." E não se ficou pelo escudo, falou da "falta de vontade" para ratificar o tratado sobre as armas convencionais na Europa (Tratado CFE).

Sócrates centrou a sua intervenção inicial naquilo que considerou um objectivo alcançado: criar as condições para melhorar as relações económicas entre os dois países, porque as políticas já são excelentes. Sobre as relações da UE com a Rússia, que certamente ocuparam boa parte das duas horas e meia de conversações directas com o seu anfitrião, insistiu de novo que são "uma questão estratégica da maior importância". Este foi seu mote, desde que chegou, e ontem, frente a Putin, quis voltar a pôr aí o acento tónico. Defendeu que, como qualquer relação estratégica, ela deve ser encarada no médio e longo prazo, e não limitada "às próximas semanas ou meses".

Ainda Samara

Abra-se um parêntesis para lembrar que fracassou a última cimeira UE-Rússia, em Samara, no passado dia 8, que as relações estão num impasse e que haverá nova cimeira em Outubro durante a presidência portuguesa. Sócrates considerou "um desafio" e uma "responsabilidade" para ambas as partes chegar "a um acordo que honre a histórica comum". Citando Putin, lembrou que "a Rússia partilhou todos os triunfos e todas as tragédias da Europa" e que teve os seus melhores momentos quando se aproximou da Europa.

Nas perguntas e respostas, que foram poucas, Putin foi igual a si próprio. Lançou-se numa série de explicações técnicas pelas quais a Rússia mantém o embargo à carne polaca. Foi este um dos braços-de-ferro que levou ao fracasso de Samara.

Insistiu em que nas relações entre UE e a Rússia não há que "deixar que a árvore esconda a floresta". Respondeu, como sempre faz, à questão do respeito pelos direitos humanos e pela democracia, uma das áreas de tensão maior com a Europa, enumerando todos os "abusos" e imperfeições das democracias ocidentais: desde a pena de morte na América até à forma como os europeus tratarão os imigrantes. Há torturas e maus tratos em países europeus, problemas com a comunicação social, leis para os imigrantes contrárias às leis internacionais. Não há bons e maus em matéria de direitos humanos.

"Valores comuns"

Sócrates, a quem a questão dos valores tinha sido colocada, foi contemporizador. Aproveitou para passar a mensagem de que as relações com a Rússia são uma coisa "muito séria", tão séria que não pode ser "contaminada" apenas por alguns aspectos.

Depois chegou onde queria pelas linhas tortas. "Sim, uma parceria estratégica implica valores comuns." "Sim, ambas as partes estão interessadas nesses valores." Mas não, "ninguém queira começar a dar lições seja a quem for". Até porque, quando se trata de democracia e direitos humanos é sempre possível fazer melhor - são sempre "obras inacabadas" e a Rússia e a UE "devem procurar fazer sempre melhor". O método deve ser discutir "aberta e francamente".

Sócrates veio para esta visita oficial, para além das questões bilaterais, com o firme propósito de pôr a tónica no "desanuviamento" depois da tensão de Samara. Não saiu desse guião nem por um instante.

Quanto ao Presidente russo, repetiu ele também o guião com que tem brindado os seus parceiros europeus e que se resume basicamente à ideia de que a Rússia, de facto, não recebe lições de ninguém e sobretudo já não é pressionável por ninguém. Mas, no final, louvou "a atitude e as posições" do primeiro-ministro português sobre "o reforço do relacionamento estratégico".

"Queremos assinar um acordo com a União Europeia, mas tem de ser um acordo que respeite os interesses de ambas as partes", foi esta a resposta de Putin à Europa e aos sinais de boa vontade que, depois de Samara, a Europa espera da Rússia.

30/05/2007 | Teresa de Sousa, Público

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