
O presidente russo, Vladimir Putin, disse ontem a José Sócrates que está disponível para uma reconciliação com a União Europeia, mas não a qualquer preço.
Rússia e União Europeia tentam restabelecer pontes
Putin deixou ontem a mensagem a Sócrates de que está disposto a tentar uma reconciliação com a Europa, mas não a qualquer preço. Questões como os direitos humanos foram desdramatizadas
Vladimir Putin aproveitou ontem o encontro com José Sócrates, que assume dentro de um mês a presidência da União Europeia (UE), para enviar à Europa o recado de que está disposto a tentar uma reconciliação - mas não a qualquer preço.
Em resposta, o primeiro-ministro português adoptou um discurso abertamente conciliatório, frisando que as relações entre as duas potências vizinhas precisam de ser reforçadas por um espírito de "confiança mútua" que não pode ser posto em causa por "lições irresponsáveis" em matéria de direitos humanos.
Na conferência de Imprensa que assinalou o fim da visita oficial de Sócrates a Moscovo - e que se seguiu a um encontro invulgarmente prolongado, de mais de duas horas e meia, entre os dois responsáveis no Kremlin -, o presidente russo manifestou-se disposto a levantar o embargo à carne polaca, mas não deixou de criticar o "proteccionismo" que a UE exerce sobre o seu mercado agrícola, numa altura em que o país ainda aguarda luz verde dos europeus para aderir à Organização Mundial de Comércio.
A Rússia - disse - quer assinar um acordo estratégico com a UE, mas "parte do princípio de que seja assinado no respeito dos interesses de ambas as partes". O presidente russo fez saber que enviou recentemente uma carta à Comissão Europeia afirmando a disponibilidade em abrir o seu mercado, permitindo à Polónia que volte a ser o primeiro exportador da gado vivo para o mercado russo.
"Pensamos que isso é um sinal claro da nossa vontade de nos aproximarmos", afirmou. Este tipo de sinais tem vindo, porém, a ser dado por parte de Moscovo há meses, sem resultados concretos.
Vladimir Putin admitiu que a visita de Sócrates ocorre num "momento conturbado" das relações entre Rússia e a UE. Putin diz ter chamado a "atenção do primeiro ministro português em relação aos planos de alguns países ocidentais" em recusarem-se a assinar o tratado de armas convencionais e, assim como a instalação de mísseis e radares defensivos na Polónia e na República Checa por parte dos norte-americanos. Tratam-se de iniciativas "muito perigosas que criam riscos desnecessários para toda a Europa", assinalou o presidente russo.
José Sócrates fez o discurso da conciliação, inclusivamente na resposta a uma pergunta que pretendia saber se primeiro-ministro português entendia que a "parceria estratégica" entre a União Europeia e a Rússia, que minutos antes tinha defendido, passava também pelo desenvolvimento de "valores comuns, direitos humanos e liberdades democráticas".
Mas foi Putin quem fez questão de se antecipar a Sócrates. "Existe pena de morte em certos países ocidentais, prisões secretas e torturas em certos países da Europa, problemas com a comunicação social, leis sobre a imigração que não respeitam as normas internacionais - isso para o nosso Governo também tem a ver com valores comuns. Por isso não podemos ver as coisas assim, de um lado as pessoas limpinhas, do outro os gnomos selvagens saídos das florestas".
O primeiro-ministro concordou. "Tenho a certeza de que ambos os lados encontrarão sinais positivos para transmitir às suas opiniões públicas, porque a relação entre a Rússia e a Europa é muito séria." E acrescentou: "Uma parceria estratégica pressupõe uma base de valores comuns", repetindo o argumento de que essa base era também a da história comum à Rússia e Europa, de dois actores que "viveram as mesmas vitórias e os mesmos dramas".
E a seguir o remate: "Para não contaminar irresponsavelmente uma relação, é importante que ninguém queira dar lições seja a quem for: a Rússia não pode ter a pretensão de dar lições à Europa, nem a Europa à Rússia.
No que diz respeito à democracia e direitos humanos, as sociedades são sempre inacabadas, é sempre possível melhorar." Eis a lição.
Durante a manhã de ontem, na sessão de abertura do Conselho Empresarial entre Portugal e Rússia, José Sócrates apelou aos empresários para que aproveitem o momento de "excelentes" relações políticas entre os dois países para potenciarem as relações económicas. "Esta visita resultou no objectivo de potenciar as relações económicas entre os dois países.
Este é o momento para que os empresários portugueses e russos tomem consciência da oportunidade e que importa não a perder", salientou. Na sua intervenção, o primeiro-ministro disse por várias vezes que os empresários portugueses, que de acordo com contas oficiais fizeram mais de 340 contactos durante a deslocação oficial, "estão interessados" na economia russa, mas frisou, sobretudo aos líderes políticos e económicos russos, que Portugal, pela sua localização estratégica, "é uma plataforma para produzir e depois vender no mercado global".
Sócrates apontou depois como exemplo o recente investimento da Companhia Nacional de Gás da Rússia em Sines - num ponto da Europa que "é uma encruzilhada entre a África e a América".
Além da localização estratégica do país, o primeiro-ministro procurou passar a imagem que Portugal "tem empresas avançadas tecnologicamente e, mesmo nos sectores tradicionais (como os têxteis), tem uma produção muito qualificada", lusa
No terceiro dia de visita oficial, na hora do balanço e das despedidas Putin e Sócrates tiraram da cartola uma novidade: a instituição de um canal de contacto regular entre os dois países. "O sinal mais importante da maturidade nas relações entre Portugal e a Rússia foi a decisão de criarmos um diálogo estratégico, institucional e regular, através da constituição de um fórum", declarou Sócrates na conferência de imprensa final. Segundo o primeiro-ministro, o fórum irá envolver políticos, empresários, académicos e agentes culturais dos dois países.
"Não vejo melhor forma de potenciar as nossas relações do que criar esse fórum, através da partilha de experiências políticas, económicas, culturais e científicas entre os dois países", declarou. Da sua visita oficial de três dias à Rússia, o primeiro-ministro destacou o acordo para a abertura de uma linha de crédito de apoio às exportações dos dois países, o entendimento ao nível da cooperação judiciária e policial e a breve presença de um pólo do Museu Hermitage em Portugal.
Ainda sobre a linha de crédito, o primeiro-ministro referiu que terá um montante máximo de 200 milhões de euros, sendo financiada pela CGD. Sócrates sublinhou o compromisso ao nível dos ministérios das finanças dos dois países para a antecipação do pagamento da dívida russa a Portugal no valor de 83,6 milhões de dólares, al com lusa
De acordo com dados estatísticos do SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, entre os 275.906 estrangeiros que escolheram Portugal para viver, há 4.939 cidadãos originários da Rússia.
Por sexos, 2468 são Homens e 2471 são Mulheres. Quase uma igualdade.