
A União Europeia e a Rússia "estão interessadas na valorização de aspectos como a democracia e os direitos humanos. Para não contaminar irresponsavelmente uma relação, é importante que ninguém comece por dar lições seja a quem for", disse ontem Sócrates no Kremlin.
Depois do prolongado encontro (duas horas e quarenta minutos) com Vladimir Putin, Sócrates fez questão de enfatizar que domínios como a democracia e os direitos humanos "devem ser discutidos com abertura e franqueza, mas sem ter a pretensão de dar lições aos outros: nem a Rússia à Europa, nem a Europa à Rússia". Putin, então, não podia ter sido mais claro: "Há prisões e torturas em vários países Europeus, há problemas com os meios de comunicação social, e países que têm leis de imigração contrárias ao direito internacional".
Para Sócrates, "a relação entre a União Europeia e a Rússia precisa de confiança mútua e são necessários sinais positivos, mas de ambos os lados. Tenho a certeza que ambos os lados encontrarão os sinais positivos para dar às respectivas opiniões públicas", disse. O primeiro-ministro elevou depois o seu tom de voz para deixar uma mensagem: "A relação entre União Europeia e Rússia é um assunto muito sério. Se queremos estar à altura da história europeia e de um futuro melhor para o mundo, é bom que seja construído uma parceria estratégica, que as suas partes desejam", apontou.
De acordo com o primeiro-ministro, Europa e Rússia "já viveram de costas voltadas demasiado tempo e este é o momento de construir uma paz e uma segurança" de longo prazo. Para o chefe do Governo português, uma parceria estratégica entre Rússia e União Europeia pressupõe uma partilha ao nível de valores como os direitos humanos e a democracia. Na inexistência de "lições mútuas", Vladimir Putin considerou que as relações políticas entre Portugal e Rússia "atravessam um momento de excelência". "Espero que a próxima presidência portuguesa da União Europeia traga um novo impulso às relações", disse. A nível bilateral, o chefe de Estado russo referiu que as trocas comerciais entre Portugal e Rússia saldaram-se em 1,5 mil milhões de euros. O volume de transacções "é ainda insuficiente", sustentou o chefe de Estado russo.
Putin deu a Sócrates a "honra" de um encontro prolongado. Elementos do executivo de Moscovo disseram que os encontros de Putin com chefes de Estado ou de Governo estrangeiros duram em média 60 minutos e nunca ultrapassam a hora e meia. Na sua intervenção inicial, Valdimir Putin criticou o projecto norte-americano de instalação de mísseis em países da Europa de Leste pertencentes à NATO e lamentou que alguns países europeus se recusem a assinar o tratado de armas convencionais (CFE).
Entretanto, José Sócrates anunciou que Portugal e Rússia decidiram criar, de forma institucional, um fórum de contacto que reunirá regularmente políticos, empresários e agentes culturais e académicos dos dois países. Ao lado de Putin, José Sócrates congratulou-se com os resultados da sua visita oficial de três dias a Moscovo. "O sinal mais importante da maturidade nas relações entre Portugal e a Rússia foi a decisão de criarmos um diálogo estratégico, institucional e regular, através da constituição de um fórum". Segundo o primeiro-ministro, o fórum irá envolver políticos, empresários, académicos e agentes culturais dos dois países. "Não vejo melhor forma de potenciar as nossas relações do que criar esse fórum, através da partilha de experiências políticas, económicas, culturais e científicas entre os dois países".