imagem de topo Missão Rússia 2007

A difícil missão de Sócrates

Putin deixou nas mãos do Primeiro-Ministro Português um "novo impulso" para as relações com a Europa.

"Confiança" foi a palavra-chave no primeiro contacto entre o primeiro-ministro português, José Sócrates, e o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin. No Kremlin, depois de duas horas e meia de conversa, Putin deixava a José Sócrates a missão de um "novo impulso" nas relações entre a União Europeia (UE) e a Rússia, a partir de 1 de Julho. E Sócrates esteve "do lado" da Rússia. Num diálogo que durou bastante mais do que o habitual, e em que Vladimir Putin terá falado bastante mais do que José Sócrates, a próxima presidência portuguesa da UE deixou para segundo plano os objectivos bilaterais da visita oficial portuguesa neste terceiro dia do primeiro-ministro em Moscovo.

Com os direitos humanos como factor de tensão desde a recente cimeira de Samara, Putin acusou o mundo ocidental de não ser exemplar nesta questão. Mas confrontado com a necessidade de dar sinais positivos para a resolução das questões que impediram, em Samara, de abrir caminho à renovação do Acordo de Parceria e Cooperação entre a União Europeia e a Rússia, nomeadamente o embargo russo à carne polaca, o presidente russo aproveitou para gracejar: "A Alemanha não quer comer esta carne, mas quer que nós a comamos?", referindo-se ao recente episódio de rejeição da carne da Polónia por parte de Berlim.

Sócrates apoiou as palavras de Vladimir Putin. "Os sinais positivos são importantes, mas têm que ser muitos. (...) A relação entre a Rússia e a UE tem que ganhar confiança, mas dos dois lados", reforçou. "A História europeia comum" foi repetida inúmeras vezes por Sócrates como plataforma de entendimento e de valores comuns que "já existem". "Já vivemos de costas voltadas demasiado tempo. A estabilidade e segurança da UE depende da relação com a Rússia", afirmou o primeiro-ministro.

O primeiro-ministro português não manteve o sorriso com que correu, às oito da manhã do dia mais quente da Rússia nos últimos cem anos, numa Praça Vermelha fechada apenas para o seu 'jogging'. Mas fez um saldo muito positivo da sua viagem à Rússia, no final do encontro com o presidente Putin. "Estou satisfeito", disse. O desenvolvimento "surpreendente" das relações bilaterais e a base comum entre os países para um diálogo internacional foram apontadas como as razões da sua satisfação. Quanto a resultados concretos, Sócrates destacou o acordo para pagamento da dívida da ex-URSS a Portugal, a linha de crédito que será criada pela CGD e pelo Banco Russo, a mostra tecnológica e o lançamento da campanha para promover o turismo em Portugal.

Os grandes negócios ficaram ainda por definir: como a nova fábrica de etileno da Companhia Nacional de Gás em Sines, a venda de mais aviões russos ao Governo português e a possível entrada da Gazprom em Portugal como fornecedor de gás natural. Para os portugueses, a Federação Russa terá tantas oportunidades de negócio como número de habitantes. Mas aqui, os negócios (ainda) são tão difíceis como os sorrisos. Os números provam-no: enquanto as exportações russas para Portugal cresceram 134% no primeiro trimestre deste ano, as vendas de Portugal para a Rússia aumentaram 48% no mesmo período.

Linha de crédito

O ministro das Finanças português, Teixeira dos Santos, anunciou ontem, em Moscovo, o início de uma "nova era" nas relações económicas Portugal-Rússia. Teixeira dos Santos acabara de assinar, no Kremlin, com o seu homólogo russo, um memorando de entendimento para a criação de uma linha de crédito de 200 milhões de euros que será liderada pela Caixa Geral de Depósitos. Destinada a apoiar e reforçar as exportações portuguesas e russas, o acordo final deverá ficar concluído dentro de dois meses, ou seja, no final de Julho. Em 2005, as exportações portuguesas para a Rússia somaram 78,7 milhões de euros, contra 374,5 milhões de euros de importações provenientes daquele país. O mesmo memorando prevê ainda que, até 20 de Agosto, se conclua o acordo intergovernamental relativo ao pagamento da dívida da ex-União Soviética, de 62,1 milhões de euros, ao Estado e a empresas portuguesas.

30/05/2007 | Catarina Beato, Diário Económico

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Sabia que...

Sabia que quase cinco mil cidadãos russos vivem em Portugal?

De acordo com dados estatísticos do SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, entre os 275.906 estrangeiros que escolheram Portugal para viver, há 4.939 cidadãos originários da Rússia.

Por sexos, 2468 são Homens e 2471 são Mulheres. Quase uma igualdade.

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